Criado em estúdios precários e improvisados e vendido ao grande público através de discos piratas e gravações caseiras, o tecnobrega é a trilha sonora oficial da periferia de Belém do Pará.

A música das  festas de aparelhagem, dos balneários populares, das feiras livres,  dos bares e dos salões de dança de terra batida e teto de zinco. O som
que define parte de uma cidade, o seu lado menos visível, mas nem por isso menos importante.

Como qualquer movimento cultural que nasce do underground para depois atingir as massas, o tecnobrega vive de acordo com as suas próprias regras. A principal delas, ser um estilo musical que se estabeleceu como segmento de mercado sem o apoio de grandes gravadoras, estações de rádio ou emissoras de televisão. Para vender sua música, nada do aparato comumente utilizado pela indústria do entretenimento, apenas as aparelhagens de som e os camelôs que vendem discos piratas no centro da cidade.

Dirigido por Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, “Brega S/A” é um documentário que pretende retratar esse peculiar fenômeno cultural e social através de personagens como DJ Maluquinho, que se auto-pirateia e enriquece sem precisar de empresário ou gravadora; Marcos Maderito, o “Garoto Alucinado”, que sobrevive de compor tecnobregas para as turmas e gangues de rua de Belém; Beto Metralha, que toca um programa de TV inteiro de um quarto nos fundos do quintal de sua casa; e os DJs Dinho, Ellysson e Juninho, as maiores estrelas do universo das aparelhagens paraenses.
Notas da produção:

A idéia inicial do filme surgiu no ano de 2003, quando Vladimir Cunha, um dos diretores do documentário, passou a se envolver com a cena tecnobrega e as festas de aparelhagem de Belém do Pará. Não só pela curiosidade em entender melhor a mutação sonora que levou à criação do gênero como também para compreender a relação entre o barateamento e a facilidade de acesso à tecnologia e essa nova cadeia de produção e distribuição que começava a se formar. Uma forma de fazer circular a produção artística local que, progressivamente, foi substituindo o modelo adotado pelas grande gravadoras.

Depois de quase três anos de pesquisa, somente em 2006 foram iniciadas as primeiras captações, que terminaram somente em junho de 2009. Sem leis de incentivo e renúncia fiscal, Vladimir e Gustavo Godinho passaram, com recursos próprios, a documentar o dia-a-dia de produtores, músicos e DJs ligados à cena tecnobrega paraense. Com isso, foi possível radiografar toda a cadeia produtiva do tecnobrega: das gravações em estúdios de fundo de quintal ao processo de distribuição através de pirateiros, camelôs e festas de aparelhagem.

De uma certa maneira, Brega S/A tem o mesmo espírito de guerrilha dos artistas tecnobregas. Por não contar com leis de incentivo, o slogan punk do “faça você mesmo”, que permeia o tecnobrega como um todo, acabou sendo a motivação por trás da realização do filme, que contou com um orçamento de 3.500 reais e uma equipe reduzida. Além dos diretores, que trabalharam ainda como diretores de fotografia, editores e roteiristas, Brega S/A contou apenas com um produtor de campo, um auxiliar de produção e um técnico de som. Isso porque, devido à natureza do tema, nenhuma empresa local se interessou em patrocinar o projeto.

Principais personagens:

DJ Maluquinho – Natural da cidade de Cametá, a 12 horas de barco de Belém, Marcos Vieira conheçou o sucesso na primeira metade dos anos dois mil com a banda de brega Tecnoshow. Após vender mais de cem mil discos somente na capital paraense, foi à falência, perdeu tudo o que tinha e passou a viver nas ruas. Foi quando criou o personagem DJ Maluquinho, um Iggy Pop tecnobrega cujo universo temático gira em torno do lado pitoresco da periferia de Belém. Maluquinho não tem gravadora. Faz seus discos em casa, paga do próprio bolso a prensagem e vende ele mesmo os seus CDs para os camelôs da cidade. Por não contar com intermediários, conseguiu enriquecer novamente faturando tanto com a venda de discos quanto com os shows que faz na capital e no interior do Pará.

Beto Metralha – Ex-DJ de tecnobrega, Beto Metralha comanda de um quarto nos fundos do quintal de sua casa uma produtora responsável por um programa de TV, pela gravação de DVDs de shows e pela produção de comerciais de televisão, em especial os de festas de tecnobrega, pagode e forró. Autodidata e sem falar uma palavra em inglês, Beto aprendeu a mexer em programas como Acid Pro, SoundForge e Fruity Loops, iniciando assim a sua carreira como DJ e produtor audiovisual. Atualmente, vive apenas dos programas de TV que produz e dos comerciais de TV, bem como de vinhetas e  DVDs de artistas de tecnobrega.

Marcos Maderito – Gosta de ser chamado de “O Garoto Alucinado”. Junto com Joe – O Menino das Produções e os DJs Waldo Squash e David Sampler criou o eletromelody, gênero que mistura o tecnobrega com o eurodance de artistas como Beny Benassi e Gigi D’Agostino. Costuma dizer que tem um campo eletromagnético ao ser redor, que, junto com o espírito de cantores como Cazuza e Renato Russo, o inspira em suas composições. Apesar de ter criado um estilo musical que rapidamente se popularizou em Belém, Maderito sobrevive de compor sob encomenda, fazendo cerca de 10 músicas por semana. Geralmente para turmas e gangues que frequentam as festas de aparelhagem e que querem ter um tecnobrega, ou eletromelody, falando de si mesmas.

DJ Dinho – Um dos pioneiros das festas de aparelhagem em Belém, está no ramo há quase 30 anos, foi responsável por transformar as festas de tecnobrega em grandes espetáculos multimídia. Já no final dos anos 90, criou um conceito de show que misturava discotecagem com telões gigantescos, paredes de caixas de som e canhões de raio laser e shows. Se auto-proclamou o “cacique” do tecnobrega, inventou a “subida do altar sonoro” (uma plataforma que elevava o DJ sobre a multidão que ia aos shows) e criou em parceria com Beto Metralha o programa Na Freqüência na TV, voltado exclusivamente para o público da periferia que frequenta as suas festas de aparelhagem. Atualmente não ocupa mais o primeiro lugar na preferência dos fãs de tecnobrega, posição que perdeu para os irmãos Ellysson e Juninho, da aparelhagem Superpop, e luta para voltar a ser o cacique do tecnobrega.

Márcio Vetron – Morador do bairro do Bengui, um dos mais pobres e violentos de Belém do Pará, Márcio Vetron é um dos responsáveis por selecionar e distribuir os últimos lançamentos do tecnobrega entre os camelôes da cidade. De bicicleta, percorre os estúdios atrás das novidades e produz, em um computador comprado à prestação, coletâneas com as composições que acha mais interessantes. Depois, as vende para os camelôs de Belém, que as reproduzem em milhares de unidades.

DJ Ellysson e DJ Juninho – São os irmãos por trás do Superpop, a maior e mais famosa aparelhagem de Belém. Radicalizaram ainda mais a experiência sensorial multimídia criada por Dinho e caíram no gosto do público que consome o tecnobrega. Suas apresentações trazem shows pirotécnicos, truques de mágica e todo o tipo de parafernália tecnológica, de televisões de plasma e telões de LCD a canhões de luz e raios laser. Um dos momentos mais esperados das apresentações do Superpop é quando a aparelhagem “metralha” a platéia, literalmente cuspindo fogo através de dois canhões posicionados nas laterais da cabine do DJ. Juninho costuma ainda dançar pendurado na armação de ferro que envolve a aparelhagem e usar, ao final de seus shows, um par de asas acoplado a um sistema de fogos de artifício. Em média, uma apresentação do Superpo atrai cerca de dez mil pessoas por noite.

Links:

Nélson Motta comenta a cena tecnobrega de Belém do Pará e o documentário Brega S/A no Jornal da Globo:

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM974087-7823
TECNOBREGA+TRANFORMA+A+CENA+ MUSICAL+DE+BELEM,00.html

Matéria na BBC News sobre tecnobrega:

http://news.bbc.co.uk/2/hi/programmes/click_online/7872316.stm

Nélson Motta fala sobre a cena tecnobrega em sua coluna para o jornal O Globo:

http://arquivoetc.blogspot.com/2008/11/tecnobrega-revolution-nelson-motta.html

Matéria de Vladimir Cunha sobre a cena tecnobrega paraense (Revista Rolling Stone – Janeiro de 2008):

http://www.rollingstone.com.br/edicoes/16/textos/1562/

Estudo sobre tecnobrega da Fundação Getúlio Vargas é destaque na CNN:

http://www.creativecommons.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=87&Itemid=47

Artigo da revista norte-americana XLR8R sobre a cena tecnobrega (fotos de Gustavo Godinho):

http://www.xlr8r.com/features/2007/04/somewhere-tecnobrega-brazil

Matéria no site Overmundo sobre o lançamento do livro Tecnobrega: O Pará Reinventado o Negócio da Música”, de Ronaldo Lemos e Oona Castro:

http://www.overmundo.com.br/agenda/ronaldo-lemos-e-oona-castro-lancam-livro-sobre-tecnobrega-1

Artigo sobre tecnobrega no site português Remixtures:

http://remixtures.com/2007/04/tecnobrega-o-poder-do-som-das-ruas/

Matéria de Cecília Giannetti (colunista do jornal A Folha de São Paulo) sobre tecnobrega para o site Portal Literal:

http://www.cultura.gov.br/foruns_de_cultura/cultura_digital/na_midia/index.php?p=24769&more=1&c=1&pb=1

Texto sobre tecnobrega no portal da TV Cultura Brasil:

http://www.radarcultura.com.br/node/32896

Brega S/A – ficha técnica:

Direção, roteiro e edição: Vladimir Cunha e Gustavo Godinho
Direção de fotografia: Gustavo Godinho
Produção executiva: Priscilla Brasil
Produção: Teo Mesquita e Lívia Condurú
Assistente de direção: Rafael Guedes
Auxiliar de produção: Carlos Lobo e Bruno Régis
Assistente de edição: Andre Morbach
Som direto: Fábio Carvalho
Uma produção Greenvision Filmes


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4 COMENTÁRIOS

Parabéns Galera, o documentário ficou muito paidégua, eu assisti ontem via MTV.

Um abraço pro Rafael Guedes ;-)

Carlos Costa escreveu em 04 out 09 às 13:21

Wlad e Gustavo o filme é muito do caralho, com técnica e conceito, edição ágil, "alucinado".

@ramquaresma escreveu em 05 out 09 às 11:53

Sou professor e vi a entrevista do Sr. Vladimir Cunha na tv cultura, no Sem Censura Pará. Fiquei feliz que tivesse autorizado a exibição em salas de aula para fins didáticos. Fico feliz, como educador, que o documentário repercutisse positivamente de tal modo que sirva de conscientização para todos. Não vejo a hora de promovê-lo e divulgá-lo para uma ampla discussão, haja vista a qualidade com que foi trabalhado o roteiro e tudo mais. Parabéns pela contribuição magistral e por revelar aquilo que muitos não querem ver, a exclusão, a manifestação cultural dos excludentes. Tudo no filme sinaliza, aponta para o cinturão que afivela e aperta cada vez mais essa bolha que é Bélém.

Raimundo Vieira escreveu em 05 out 09 às 19:31

Parabéns pela produção do documentário, sou de Manaus e vi na MTV principalmente pela abordagem sociológico e auto-explicativa. Abraços.

Rafael Oliveira escreveu em 15 nov 09 às 3:24

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